O Mítico e o místico na poÉTICA mineira

 

Francis Paulina Lopes da Silva - Universidade Federal de Viçosa

 

O mundo alegórico se esvai,

Fica esta substância de luta

De onde se descortina a eternidade.

 

Murilo Mendes

 

Como em todas as culturas, a história mineira, em seus três séculos de tradição, é marcada pela presença viva dos incontáveis mitos, que marcam a história cultural do povo, e se espelha criativamente na construção poética popular e literária.

As narrativas míticas legadas pela Antigüidade Clássica, vêm-nos, entretanto recriadas e multiplicadas pelo imaginário antropofágico de uma cultura mestiça das muitas culturas que povoaram as terras brasileiras e mineiras. Nicolau Sevcenko assim enfatiza essa tendência à transformação dos mitos clássicos em mitos “brasileiros”: “É fascinante, nesse sentido, o modo como nossa cultura reencontra os passos alumbrados do paganismo antigo, cruzando lisa e profundamente com marcas da tradição literária legada pela mitologia grega e romana” (Sevcenko, 1998, p. XXV).

Nos versos de autores mineiros, expressivos de uma civilização intensamente marcada pela religiosidade, também evidenciam-se, com freqüência, marcas da releitura do mito à luz do transcendente, pela força mágica da palavra literária. Especialmente em Minas Gerais, colonizada à luz da fé católica, e fortemente marcada pela religiosidade afro, graças à presença dos negros escravos nas minas de ouro, toda uma cultura mística, muitas vezes vem denunciar a desestruturação do homem, da vida interior, por um sistema social e político injusto e opressor.

Adélia Prado, no poema intitulado “Anunciação do poeta”, em diálogo com o texto da Anunciação do anjo a Maria (Lc 1, 26-38), refere-se às origens fantásticas dos grandes personagens mitológicos. Como na profecia do nascimento e da missão de Jesus, o Messias, aqui é atribuída ao poeta a missão divina, mas também dolorosa, de transformar tudo em matéria de sua poesia. E ainda remetendo-se à visão apocalíptica do apóstolo João, a quem um anjo ordenou que comesse um pequeno livro, doce como o mel ao paladar, mas amargo nas entranhas (Apc 10, 8-11), os versos de Adélia retomam a missão profética do poeta, de devorar, assimilar o mundo e a realidade para traduzir tudo em versos, como num parto “cheio de dor”:

 

Ave, ávido.

Ave, fome incansável e boca enorme,

come.

da parte do Altíssimo te concedo

que não descansarás e tudo te ferirá de morte;

o lixo, a catedral e a forma das mãos.

Ave, cheio de dor

 

Prado, 1991,p. 66)

 

Esse doloroso parto poético representa, entretanto, papel fundamental para uma cultura, ao apresentar a leitura crítica do mundo a um público leitor / ouvinte. Robert Penn Warren, no ensaio sobre “Poesia e identidade” (Cf. Warren, 1975, p. 51-58), fala do valor terapêutico da poesia, da literatura e enfim, da arte, como um modelo de harmonia e autenticidade do “eu” em luta contra os efeitos corrosivos da moderna sociedade comercial tecnotrônica. Numa democracia cujo progresso desmedido pôs em risco a noção do “homem livre”, segundo o autor, só pela arte o homem é capaz de olhar além de si mesmo e de insurgir-se contra essa cultura criada, buscando sua identidade:

 

Mas qual é o papel da poesia nisso tudo? O de um antídoto, um excelente antídoto, para a passividade. Porque a poesia exige participação, desde o secreto eco físico nos músculos e nervos que nos identifica com o meio até os rasgos de imaginação que agitam os recessos mais profundos onde habitam os valores e a força vital. Além disso, ela alimenta nossa força vital no processo de testar nossos valores (Warren, 1975, p. 98).

 

Inseridos no processo sociopolítico e cultural de rápidas e sucessivas mudanças que invade a tradicional Minas Gerais, pela poesia, autores mineiros sempre retomam seu lugar de origem, sua “Pasárgada”, onde a vida explode em ritos e crenças que passam a ser parte viva de uma cultura. Assim surgem, criativa e sugestivamente, várias versões do mítico, evocando a dinâmica do mito, sua força viva, como expressão coletiva de uma tradição.

Segundo Pierre Brunel, o mito exerce três funções: ele conta, explica e revela. É uma narrativa de um acontecimento no tempo primordial e fabuloso dos começos; explica uma “criação”, narra como algo começou a ser; e enfim, revela o ser (é uma “ontofania”), o deus, podendo ser representado como “uma história sagrada” (Cf. Brunel, 1998, p. XVI).

Nos versos de “Texto”, o poeta Edimilson Pereira, natural de Juiz de Fora (1963), fala da literatura em seu poder de recriar mitos, contar, explicar, revelar e eternizá-los, tal a força da palavra artesanal:

 

A cada pó sua

têmpora. Do livro

se erguem ídolos,

os mais remotos.

Na ausência de espera,

burlado esquecimento.

Não há o que morre,

mas o gris:

sua figura.

 

Pereira, 1991, p.31

 

E ainda no poema intitulado “Míticos”, há a referência à atitude persistente do poeta, de auscultar o tempo,

 

O tempo é nossa matéria,

Os livros, em sua quietude,

nos preservam.

Trazemos risos sem autores

e sabedorias ocultas.

 

Continuaremos, olhos ardentes,

quando até o tempo descuidou-se

Pereira, 1991, p. 88

 

Enfim, dentre os vários temas da mineiridade, observamos, sempre recorrente em textos de autores mineiros, a tendência à mitificação e ao misticismo. O poeta, mesmo ao tratar de um tema banal, busca olhar além das aparências, e vislumbrar o eterno, a vida além da morte, o transcendente além do imanente. Por exemplo, Guimarães Rosa, em Ave, palavra, remete o leitor à contemplação da “mais vida” que se oculta na morte, ao refletir enigmática e poeticamente sobre a missão do coveiro:

 

O coveiro, topereiro operador.

Neutra, a relvaesparramaz, alegre no entreabrirfechar florinhas, se não há nunca. O vento, devolvedor de palavras.

Depois da vida o que há é mais vida.... (Rosa, 1994, p. 1032).

 

Na poética popular, é freqüente essa construção mística a partir de temas evocados pelo mito. A tradição oral e escrita, referente à cultura popular revela-nos um rico e variado acervo de profundas reflexões sobre o sentido último do homem e da vida, algumas das quais se tratará a seguir.

 

O mito no imaginário místico popular mineiro

 

Em versos de autores populares, as múltiplas formas de mitos refletem a criação do imaginário místico do homem mineiro, num olhar sempre atento e crítico à História, à sociedade e ao seu tempo. Assim, os poemas de Edimilson Pereira, poeta mineiro de Juiz de Fora e estudioso da cultura popular, revivem os mitos ligados às origens da cultura negra. No poema intitulado “A pena”, o sujeito poético avalia a “abolição”, lendo-a sob a ótica reflexiva do próprio negro, agora consciente das implicações socioculturais e existenciais do gesto lendário, mas “com medo”, da princesa Isabel, que proclamou a abolição, mas nunca a libertação do negro, ainda hoje excluído, marginalizado:

 

A princesa assinou

com medo as linhas.

 

Palavras dizem muito

mas nunca dizem tudo.

O papel bordado em ouro

fala a língua de pouco.

 

A vida é maior que a letra

junta os ossos na margem.

 

Pereira, 1991, p. 114

 

Também no poema “Missa conga”, Edimilson questiona o ritualismo aprendido dos europeus, capaz de suprimir o culto das origens africanas, no “altar dos antigos”, que ensinara a “linguagem do mundo”. O olhar místico do poeta alcança a essência da religião do povo negro que melhor se identifica com o “deus com olhos de plumas que vive no fundo dos tempos”:

 

Para que deuses se reza

quando o corpo aprendeu

 toda linguagem do mundo?

 

Onde se deitam os olhos

quando o altar dos antigos

 ainda se esconde?

 

Para que deuses se reza

quando as palavras se velam

 para invocar os nomes?

 

Por que não entregar a vida

ao deus com olhos de plumas

 que vive no fundo dos tempos?

 

Pereira, 1991, p.115

 

Nas cantigas folclóricas de autoria popular anônima, é comum a mitificação de um personagem histórico, religioso, como o santo da devoção do povo. As congadas e as folias, por exemplo, representam um ritual que se incorporou à tradição mineira, já registrado desde as festividades da era barroca, ao mesmo tempo de cunho religioso e pagão. Na região aurífera mineira, a antiga Vila Rica festejou solenemente o “Triunfo Eucarístico” (1733), na inauguração da matriz de Nossa Senhora do Pilar, e o “Áureo Trono Episcopal” (1748), por ocasião da criação do Bispado marianense. Observa Afonso Ávila, em O lúdico e as projeções do mundo barroco, que, paralelamente à música coral sacra, no cortejo organizado pelas irmandades, pelos padres e militares, o povo humilde, indígenas e negros, também participava dos festejos com seus próprios instrumentos e cantos (Cf. Ávila, 1994, p. 152-158).

Dentre essas canções expressivas da cultura negra, é interessante a leitura do mito da princesa Isabel, até mesmo considerada santa no “Auto das Congadas”, tradição herdada dos antepassados negros, nos festejos de Nossa Senhora do Rosário, em vilarejos da microrregião de Viçosa. Do auto, transcrevem-se a seguir alguns desses versos, em cuja recitação da narrativa histórica, os foliões rememoram mítica e misticamente o 13 de maio, dia da Abolição da escravatura, confundindo no relato do fato histórico, as suas devoções e louvações cristãs:

 

Há vinte anos pra tráis

O povo sempre falava

Aqueles que eram ativo

Nele acreditava.

 

Foi em 88

Que essa lei foi resolvida

Tivero um grande trabaio

No surgimento da vida

 

No dia 13 de maio

Foi um dia respeitado

Abalou o mundo inteiro

Inté os inferno esfriaro

Pois uma Santa Izaber

Sintiu pur nosso respeito.

Fez uma grande festa de treis rei

Preto, caboclo e mulato.

E todos havemo de adorá,

Fazê uma missa campá

E uma comunhão gerá.

 

Inté os passos chorava

De vê os pobre dos “tio”

Naqueles grande sofrimento

As arma santa bendita

Tavam cantano de aligria

De vê os anjos do céu

Rezá o rosaro de Maria...

 

Paniago, 1983, p. 36-37

 

 

É interessante observar no texto, a alusão aos três Magos do Oriente que, segundo a tradição bíblica, visitaram Jesus. Aqui eles são identificados segundo a leitura cultural da resistência de uma raça massacrada e vilipendiada que agora se faz representar pelos três reis: “preto, caboclo e mulato”.

O poeta Edimilson Pereira, retomando essa herança cultural negra, ao referir-se à Folia de Reis, relê criticamente o mito, numa crítica irônica à cultura europeizada. No poema “Folia”, canta a dura realidade do homem simples, moído pela friagem, do velho cansado e sofrido, cada qual com sua dor, seu mistério.

 

Mestre: Os reis não viram estrela:

Foram vistos.

Dois seguem, o terceiro

Dormiu no orvalho.

 

Em seu encalço o inimigo

Com os cavalos da morte

Um rei segue, outros

Cobrem seus passos

 

Os reis na lapinha:

Um trouxe, o que os outros

Não sabiam. Ô reis

a que viestes?

 

O Bastião: Trouxe um par de enigmas

E uma dança de bastões.

Agora não sei de nada

o frio, contudo, é maior.

O Friage: A caminho os guardas moeram

a chuva encarangou: trago

os dedos e a tremedura

do corpo que espera

 

O Velho: Quando vi sereno nasci

com os ossos perfumados.

A vida os foi quebrando

trago as mãos e as sobras.

 

Mestre: É tempo de abrir a noite.

Muitos choram, outros não.

os reis vão mudos

cada qual com seu mistério.

 

A estrela, uô

se esconde no orvalho.

 

Pereira, 1991, p. 141-142

 

Já no início, a inversão irônica da narrativa mítica reinterpreta o maravilhoso sugerido na visão da estrela pelos Magos do Oriente, agora sob a ótica da realidade dos foliões. “Eles é que foram vistos”, cada qual em sua fragilidade. Mas os versos sugerem a permanência da tradição, mesmo que limitados pelas intempéries, ainda assim um deles oferece “um par de enigmas e uma dança de bastões”..., os “reis” seguem seu percurso, “cada qual com seu mistério”.

Assim, o poeta relê a realidade da cultura popular que resiste e insiste em preservar seus laços com a tradição, seus valores e a força vital que a mantêm. O olhar mítico se esconde no olhar místico de quem contempla a vida em sua crueza, mas sempre capaz de esconder a “estrela” entre o orvalho.

 

O olhar mítico visionário e místico de Murilo Mendes

 

Em Murilo Mendes, o mundo mítico povoava já os sonhos do menino, do jovem e do homem feito, em sua singular tendência surrealista. O cometa de Halley, o mágico dançarino Nijinski, a mãe, Elisa, falecida em sua primeira infância... que, vestida de rendas, cai no álbum de retratos... Platão, Jesus Cristo, o apóstolo São Paulo, Santa Teresa de Ávila, Miguel de Cervantes, Mozart, Ismael Neri, e tantos outros mitos se incorporaram com força viva e atuante na vida e na poesia muriliana. Em sua obra, os mitos evocados da Antigüidade Clássica, os do universo bíblico, hebraicos e cristãos, populares e folclóricos, ao olho armado do poeta revivem criativamente e, muitas vezes, misticamente.

No livro em prosa, Poliedro (1965-66), tem-se um variado inventário pessoal do poeta sobre animais, objetos, locais e situações familiares, como um interessante glossário experimental, na seção intitulada “Setor microzoo”, Murilo, como que reconstruindo o pensamento do menino experimental, constrói com destreza e humor, o universo animal associado a uma série de divagações, evocadas a partir do seu microzoo poético, acervo de um imaginário particularíssimo.

Desse glossário, aqui destacamos a seção intitulada “A baleia”, que o poeta começa a definir com ironia: “A baleia é um cetácio da dinastia dos Balenídeos de forma quadradoredonda, cor de burro quando foge. Quem descobriu os abismos da baleia, animal bárbaro, barbado?” (p. 983). E em seguida, inesperadamente, sua prosa poética envereda pelo imaginário mítico, evocando o episódio lendário bíblico que narra a “visita” de Jonas ao ventre de um “peixe grande” (Cf. Jn 2, 1-11). Aqui é o animal que faz a experiência fantástica do “outro mundo” do profeta:

 

A baleia caminhou três dias e três noites no oco de Jonas, restituindo assim a visita que o profeta fizera anteriormente ao seu próprio oco. A baleia aprofundou-se: viu, ouviu, cheirou histórias de arrepiar, coisas espantosas deste e doutro mundo, que os profetas sabidos conhecem, ruminam, difundem entre os homens e os bichos. Coisas, histórias rodando, evoluindo através dos tempos, elucidativas, oportunas em qualquer circunstância da vida individual e universal.

Desde então a baleia, movida a óleo de autopropulsão, se auto-informa, se auto-espanta e não se comunica com pessoa alguma ou bicho. Construiu seu automuro. Reina soberana, sem vizinho ou confronto, sobre os mares e os mores, excluindo-se voluntariamente da carta das rações (Mendes, 1994: 983).

 

Ironicamente, em seu vôo surrealista, Murilo constrói uma espécie de perfil psicológico da baleia, autodidata, isolada, a reinar em seu “automuro”. Esta serve de motivo para o poeta adensar-se na reflexão sobre a própria construção mítica, que envolve “Coisas, histórias rodando, evoluindo através dos tempos, elucidativas, oportunas em qualquer circunstância da vida individual e universal”.

Será, pois, a partir dessa dança e desse diálogo com a memória, que o Murilo, aliando o lendário à realidade experimentada, irá construir a sua obra poética como espelho de uma memória inventiva, através do jogo artesanal, irônico, fantástico e surrealista reconstituindo, misticamente, uma infinidade de mitos, como o de Jesus Cristo, que merecerá, a seguir, uma breve leitura.

 

A construção muriliana do mito Jesus Cristo

 

O poeta do olho armado, que perseguiu vorazmente o mundo das formas, através de um imaginário poético singular, também revela, em seus versos, uma constante preocupação com o transcendente, em busca incansável da essência máxima das coisas e do mundo. Para ele, sua vocação poética revelou-se a partir de uma experiência mística profunda e única, de uma dádiva de Deus em sua vida, como o revelou em “O servo de Deus”: “Quando vi passar o cometa de Halley, em 1919, tive a revelação fulminante da poesia: acreditei que o cometa vinha PARA MIM".

O Mítico e o místico na poÉTICA mineira Francis Paulina Lopes da Silva*Universidade Federal de Viçosa. O mundo alegórico se esvai, Fica esta substância de luta De onde se descortina a eternidade.Murilo Mendes            Como em todas as culturas, a história mineira, em seus três séculos de tradição, é marcada pela presença viva dos incontáveis mitos, que marcam a história cultural do povo, e se espelha criativamente na construção poética popular e literária. As narrativas míticas legadas pela Antigüidade Clássica, vêm-nos, entretanto recriadas e multiplicadas pelo imaginário antropofágico de uma cultura mestiça das muitas culturas que povoaram as terras brasileiras e mineiras. Nicolau Sevcenko assim enfatiza essa tendência à transformação dos mitos clássicos em mitos “brasileiros”: “É fascinante, nesse sentido, o modo como nossa cultura reencontra os passos alumbrados do paganismo antigo, cruzando lisa e profundamente com marcas da tradição literária legada pela mitologia grega e romana” (Sevcenko, 1998, p. XXV). Nos versos de autores mineiros, expressivos de uma civilização intensamente marcada pela religiosidade, também evidenciam-se, com freqüência, marcas da releitura do mito à luz do transcendente, pela força mágica da palavra literária. Especialmente em Minas Gerais, colonizada à luz da fé católica, e fortemente marcada pela religiosidade afro, graças à presença dos negros escravos nas minas de ouro, toda uma cultura mística, muitas vezes vem denunciar a desestruturação do homem, da vida interior, por um sistema social e político injusto e opressor.             Adélia Prado, no poema intitulado “Anunciação do poeta”, em diálogo com o texto da Anunciação do anjo a Maria (Lc 1, 26-38), refere-se às origens fantásticas dos grandes personagens mitológicos. Como na profecia do nascimento e da missão de Jesus, o Messias, aqui é atribuída ao poeta a missão divina, mas também dolorosa, de transformar tudo em matéria de sua poesia. E ainda remetendo-se à visão apocalíptica do apóstolo João, a quem um anjo ordenou que comesse um pequeno livro, doce como o mel ao paladar, mas amargo nas entranhas (Apc 10, 8-11), os versos de Adélia retomam a missão profética do poeta, de devorar, assimilar o mundo e a realidade para traduzir tudo em versos, como num parto “cheio de dor”: Ave, ávido. Ave, fome incansável e boca enorme, come. da parte do Altíssimo te concedo que não descansarás e tudo te ferirá de morte; o lixo, a catedral e a forma das mãos. Ave, cheio de dor (Prado, 1991,p. 66) Esse doloroso parto poético representa, entretanto, papel fundamental para uma cultura, ao apresentar a leitura crítica do mundo a um público leitor / ouvinte. Robert Penn Warren, no ensaio sobre “Poesia e identidade” (Cf. Warren, 1975, p. 51-58), fala do valor terapêutico da poesia, da literatura e enfim, da arte, como um modelo de harmonia e autenticidade do “eu” em luta contra os efeitos corrosivos da moderna sociedade comercial tecnotrônica. Numa democracia cujo progresso desmedido pôs em risco a noção do “homem livre”, segundo o autor, só pela arte o homem é capaz de olhar além de si mesmo e de insurgir-se contra essa cultura criada, buscando sua identidade: Mas qual é o papel da poesia nisso tudo? O de um antídoto, um excelente antídoto, para a passividade.

 

 

Referências Bibliográficas:

 

SEVCENKO, Nicolau. Prefácio à edição brasileira. In: BRUNEL, Pierre (Org.). Dicionário de mitos literários. Trad. Carlos Sussekind et al. 2. ed. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1998. p. XXI-XXV.

DAUPHINÉ, James. Mitos cosmogônicos. In: BRUNEL, Pierre (Org.). Dicionário de mitos literários Trad. Carlos Sussekind [et al.]. 2. Ed. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1998. p. 698-701.

MENDES, Murilo. Poesia completa e prosa. Org. Luciana Stegagno Picchio. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1984.

PANIAGO, Maria do Carmo Tafuri. Viçosa - tradições e folclore. 2. ed. Viçosa: UFV, Impr. Univ., 1983.

PEREIRA, Edimilson de Almeida. Corpo vivido: reunião poética. Juiz de Fora: D’Lira, 1991.

PRADO, Adélia. Poesia reunida. São Paulo: Siciliano, 1991.

ROSA, João Guimarães. Ficção completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. v. 2.

SILVA, F. P. L. Murilo Mendes e o mito do eterno retorno. Revista Verbo de Minas; Minas, mito, mulher. Publicação da Pós-Graduação do Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora, v. 2, n. 3. Juiz de Fora: CES, 1999. p. 85-99.

______. Murilo Mendes: Orfeu transubstanciado. Viçosa: Editora UFV, 2000. 184 p.: il.

WARREN, Robert Penn. Democracia e identidade. Trad. Ronaldo Sérgio de Biasi. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1975.